Greve total na <i>Lusa</i>
De 18 a 21 de Outubro o serviço da agência Lusa paralisou, em resultado da adesão praticamente total dos jornalistas e demais trabalhadores à greve para exigir que o Governo mantenha o valor do contrato-programa.
A crise na comunicação social suscita especial preocupação
Em conferência de imprensa, na segunda-feira, na sede do Sindicato dos Jornalistas, os órgãos representativos dos trabalhadores da Lusa apresentaram um balanço da greve e das iniciativas que foram realizadas neste período.
A adesão à greve foi da ordem dos 90 por cento, mas fica acima dos 95 por cento se não for considerada a hierarquia superior da agência. Foi assinalado que, na Redacção, todos os editores e editores-adjuntos aderiram à luta.
Na quinta-feira, primeiro dia de greve, realizou-se uma concentração frente à presidência do Conselho de Ministros, onde o Governo estava reunido. Também nessa manhã, teve lugar outra concentração, frente à delegação da Lusa, no Porto. De tarde, os trabalhadores concentraram-se frente à sede da agência.
No dia seguinte ocorreram concentrações em Lisboa, frente à Assembleia da República, junto à sede do jornal Público (onde decorria uma greve contra os despedimentos) e na Lusa, bem como no Porto. Todas tiveram a participação de trabalhadores da Lusa, do Público e de outros órgãos de comunicação social, salientaram os ORT.
Na baixa do Porto e no Chiado, em Lisboa, a luta foi divulgada à população, através da distribuição de três mil documentos, no sábado. No domingo, último dia de greve, foi feita uma ronda por televisões, rádios e jornais, onde os trabalhadores entregaram um documento.
Emprego e serviço
A redução de 30,9 por cento, nas verbas do contrato-programa, prevista no Orçamento do Estado para 2013, «representa uma diminuição de quase um quarto (mais de 24 por cento) nas receitas totais da agência», que não pode aumentar receitas por via da subida dos preços, uma vez que estão «muitas empresas de comunicação social em dificuldades, devido à quebra das receitas de publicidade e de vendas, na imprensa».
Caso se concretizasse, aquele corte «implicaria seguramente despedimentos, afectando fortemente a rede de delegados e correspondentes que a Lusa mantém em meia centena de localidades portuguesas e em 25 países de todos os continentes, e poria em causa o serviço que a Lusa actualmente presta ao País», refere-se no documento que serviu de base à conferência de imprensa.
Se a agência ficasse, com aquela redução, sem verbas suficientes para a sua operação normal, haveria o despedimento de «algumas dezenas» de trabalhadores e de colaboradores a recibo verde. Os ORT advertem que «mesmo com um corte de 15 por cento (2,4 milhões de euros), que terá sido sugerido pela administração, o serviço hoje prestado só seria possível porque os trabalhadores sofreram cortes salariais que estimamos superiores a 2,7 milhões de euros, em 2012, e que em 2013, com a alegada devolução de um subsídio que será absorvido pelo aumento do IRS, deverão aproximar-se dos dois milhões». Tais cortes salariais «não podem e não devem ser definitivos», defendem os representantes sindicais e da comissão de trabalhadores.
Os representantes dos trabalhadores da Lusa valorizaram as «muitas manifestações de solidariedade» recebidas durante a greve e nas concentrações, onde compareceram, entre outros, dirigentes e deputados do PCP e dirigentes da CGTP-IN.
Uma petição, posta a circular na semana passada, ultrapassou já as quatro mil assinaturas.
Coragem e espírito fraterno
A Direcção do Sindicato dos Jornalistas, num comunicado que emitiu sexta-feira, saudou «a capacidade de mobilização e de resistência», que as greves na Lusa e no Público estavam a demonstrar, e destacou «o espírito fraterno e solidário que animou a jornada comum de luta hoje realizada».
Além de assinalar que o serviço da Lusa permanecia «completamente parado, não tendo entrado na linha um único take», pelo segundo dia, o SJ realçou que na greve de 24 horas, no Público, «também se registou uma adesão esmagadora, nomeadamente dos jornalistas».
Depois de referir que «os jornalistas e outros trabalhadores de ambas as empresas estiveram juntos em vários momentos do dia», em Lisboa e no Porto, o sindicato conclui que «os indesmentíveis níveis de adesão registados em ambas as empresas e as consequências das paralisações demonstram a determinação dos trabalhadores da Lusa e do Público em defenderem os postos de trabalho ameaçados e também o futuro destes importantes órgãos de informação».
«A coragem e a firmeza exemplares, demonstradas pelos jornalistas e outros trabalhadores da Lusa e do Público, o espírito fraternal registado nas suas iniciativas e a solidariedade já demonstrada por inúmeros jornalistas mostram que é possível percorrer um caminho de unidade mais longo e mais largo, juntando mais jornalistas e mais órgãos de informação», afirma o sindicato, que entretanto convocou reuniões para amanhã.
Reunião geral em Lisboa e no Porto
Os jornalistas e a crise: o que fazer?
O Sindicato dos Jornalistas (SJ) promove, sábado, às 15 horas, simultaneamente na Sede Nacional (Lisboa) e na Delegação Norte do SJ (Porto), uma reunião geral de jornalistas – sócios e não sócios – para discutir a situação actual das redacções, no sector e no País, bem como reflectir sobre formas de luta a adoptar pela classe, incluindo o recurso à greve na generalidade das empresas do sector.
Esta reunião tem como pano de fundo, segundo o SJ, «a mais grave ofensiva de sempre contra o direito ao trabalho no sector, traduzida em elevado número de despedimentos, em continuado emagrecimento forçado das redacções e redução de condições salariais, assim como o brutal agravamento das condições de vida dos trabalhadores em geral e mesmo dos reformados, pensionistas e desempregados».
Para o dia 24 de Novembro, está já agendada uma grande Conferência Nacional dos Jornalistas, em Lisboa, que será mais um passo no caminho da concretização do ansiado 4.º Congresso dos Jornalistas Portugueses.